A Fitoterapia Chinesa é um dos pilares fundamentais da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), ao lado da acupuntura, sendo a principal técnica utilizada para o tratamento de doenças internas. Diferente da abordagem ocidental, que muitas vezes busca isolar um único princípio ativo para tratar uma doença específica, a fitoterapia chinesa utiliza o conceito de fitocomplexo: um conjunto de substâncias ativas que atuam de forma sinérgica no organismo para restaurar o equilíbrio global.
A Origem Milenar
A utilização da natureza para fins terapêuticos na China remonta a mais de 4.000 ou 5.000 anos. Os registros sugerem que a prática surgiu da experiência de povos antigos que observavam o efeito de raízes e folhas no alívio de sintomas. A fundamentação teórica foi sistematizada em obras clássicas como o Neijing (o livro de medicina mais antigo conservado), escrito por volta de 475 a.C., e pelas contribuições do lendário Imperador Shen Nung.
Atualmente, a matéria médica chinesa é vastíssima. A enciclopédia Modern Day, publicada em 1977, lista quase 6.000 medicamentos, dos quais cerca de 4.800 são de origem vegetal. Essa tradição milenar não apenas sobreviveu ao tempo, mas foi integrada à medicina moderna na China e em diversos países, contribuindo para a sua popularidade global.
Como Ela Age? O Modo de Ação Energético
O modo de ação da fitoterapia chinesa é fundamentado em teorias filosóficas e cosmológicas que enxergam o ser humano como um microuniverso integrado à natureza. Enquanto a medicina ocidental foca na etiologia biológica, a chinesa foca em processos de desequilíbrio.
As plantas e fórmulas agem através de categorias específicas:
• A Harmonia Yin-Yang: O objetivo central é equilibrar esses princípios opostos e complementares. Se há excesso de calor (Yang), usam-se ervas de natureza fria ou fresca.
• A Teoria dos Cinco Movimentos: As ervas são classificadas de acordo com as fases da natureza (Madeira, Fogo, Terra, Metal e Água) e seus respectivos sabores (azedo, amargo, doce, picante e salgado). Cada sabor tem um direcionamento: o doce tonifica o Baço, enquanto o azedo atua no Fígado.
• Direcionamento do Ch’i (Energia Vital): As ervas possuem movimentos que "induzem" a energia a subir, descer, flutuar ou aprofundar-se no corpo.
• Afinidade pelos Meridianos: A experiência milenar identificou que certas plantas agem seletivamente em zonas específicas de influência (meridianos), conectando-se aos órgãos internos (Zang Fu).
Para facilitar a compreensão, podemos comparar a fitoterapia chinesa a uma orquestra: cada erva na fórmula é um instrumento. Sozinha, uma planta pode ter um efeito, mas, quando combinada em fórmulas consagradas, as substâncias trabalham juntas para harmonizar o "ritmo" do corpo, onde uma erva potencializa a ação da outra ou neutraliza possíveis efeitos colaterais.
Exemplos de Utilização e Ervas Famosas
A fitoterapia chinesa é amplamente utilizada para doenças crônicas e desequilíbrios emocionais. Alguns exemplos notáveis incluem:
1. Fórmulas para Estresse e Ansiedade: A decocção Gan Mai Da Zao (GMDZ), composta por Alcaçuz (Gan Cao), Trigo (Fu Xiao Mai) e Jujuba (Da Zao), é utilizada há milênios para nutrir o coração e acalmar a mente, reduzindo níveis de estresse e depressão.
2. Síndrome Metabólica e Diabetes: Fórmulas como Yiqi Huaju e JTTZ demonstraram eficácia em melhorar a sensibilidade à insulina e regular níveis de glicose e lipídios.
3. Ervas Individuais Icônicas:
◦ Panax ginseng (Ren shen): Reconhecida por sua potente ação tônica e revitalizante.
◦ Angelica sinensis (Danggui): Fundamental para tratar desequilíbrios do sangue e questões ginecológicas.
◦ Artemisia annua (Qing ha): Famosa por suas propriedades medicinais tradicionais e estudos modernos.
◦ Berberina: Extraída de plantas como Coptis chinensis, é um exemplo de ativo tradicional usado hoje para controle metabólico.
Segurança e Reconhecimento no Brasil
No Brasil, a fitoterapia chinesa é reconhecida e integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) através da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC). O uso desses recursos é orientado por diretrizes de segurança, eficácia e qualidade, com muitas plantas e produtos registrados ou notificados pela Anvisa.
É importante ressaltar que, embora "natural", a fitoterapia chinesa possui química ativa e deve ser prescrita por profissionais qualificados que compreendam os diagnósticos energéticos da MTC para evitar interações indesejadas.
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